O título de “melhor amigo do homem” é indiscutível para os cães. Leais, brincalhões e adoráveis, eles são a companhia perfeita para diversas ocasiões, mas a presença deles em praias do litoral paulista, como em Ubatuba, gera controvérsia. Embora a ideia de dividir um dia ensolarado à beira-mar com seu pet pareça irresistível, a prática é proibida e pode gerar multas significativas, que chegam a quase R$ 5 mil, dependendo do porte do animal.
A legislação que regula a questão é amparada pela Lei Municipal 1.827/99 e pelo Decreto Estadual 52.388/70. Ambos determinam a proibição da entrada de animais nas praias públicas, com a justificativa de proteger a saúde pública, evitar a propagação de doenças e preservar a limpeza e o equilíbrio ambiental. Em Ubatuba, o descumprimento dessa norma implica multas que variam de R$ 1.388,55 para pets de pequeno porte a R$ 4.628,50 para os maiores.
A polêmica entre leis e costumes
Embora a legislação seja clara, a realidade das praias de Ubatuba apresenta contradições. Algumas, como Itamambuca, contam com sinalizações visíveis que reforçam a proibição. No entanto, em praias populares como Praia Grande ou mais reservadas como Vermelha do Centro, a presença de cães passeando com seus tutores não é rara, criando um ambiente de tolerância informal.
Essa coexistência entre leis rigorosas e a prática cotidiana evidencia um desafio frequente em cidades turísticas: conciliar o bem-estar animal e os direitos dos tutores com a preservação ambiental e a saúde pública. Para muitos tutores, levar o pet à praia é um momento de lazer e vínculo afetivo, mas para outros frequentadores, pode representar riscos ou incômodos.
Vamos Refletir?
A medida restritiva encontra fundamento legítimo em questões sanitárias e ambientais. Fezes de animais podem conter parasitas como ancilóstomos, que oferecem riscos à saúde humana. Além disso, a circulação descontrolada de cães pode impactar a fauna local, como aves marinhas, além de gerar conflitos entre turistas e moradores.
Por outro lado, a proibição absoluta ignora a realidade de muitos tutores responsáveis, que recolhem dejetos e mantêm seus pets na coleira. Em cidades de outros estados ou países, a solução vem na forma de praias específicas para animais, com infraestrutura adequada e regras claras para tutores e frequentadores. Por que não adotar modelos semelhantes em Ubatuba?
Ao invés de um veto generalizado, o município poderia explorar alternativas mais equilibradas, como delimitar áreas pet-friendly em determinadas praias ou criar espaços dedicados exclusivamente aos animais. Tal medida atenderia a uma demanda crescente por opções de lazer que incluam os pets, sem comprometer a saúde pública ou a preservação ambiental.
E os animais abandonados?
Enquanto a presença de pets acompanhados nas praias é alvo de fiscalização e multas pesadas, uma questão maior permanece sem solução: o que a Prefeitura de Ubatuba tem feito em relação aos animais abandonados que circulam pela cidade, inclusive nas praias? É comum avistar cães e gatos de rua nesses locais, muitas vezes em condições precárias de saúde e sem qualquer assistência.
O combate ao abandono e a criação de políticas públicas efetivas para o cuidado desses animais deveriam ser parte integrante das discussões sobre a convivência nas praias e na cidade. Programas de castração, campanhas de adoção e parcerias com ONGs poderiam contribuir para reduzir o número de animais em situação de rua. No entanto, pouco se ouve sobre ações concretas por parte do poder público nesse sentido.
Se a justificativa para a proibição dos pets nas praias é a saúde pública e a preservação ambiental, como lidar com o impacto dos animais abandonados nesses mesmos espaços? Essa é uma questão que exige urgência e transparência por parte da administração municipal.
Conciliação é possível?
O tema exige diálogo entre as autoridades municipais, ambientalistas, e a comunidade local e turística. É necessário reforçar a fiscalização e a educação ambiental, mas também considerar os direitos dos tutores, o bem-estar animal e o potencial econômico do turismo pet-friendly.
Por enquanto, a regra é clara: pets nas praias de Ubatuba podem render multas pesadas, e cabe aos tutores respeitar a legislação vigente. Contudo, a criação de áreas específicas para pets e ações voltadas para o cuidado de animais abandonados poderiam transformar o impasse em oportunidade, conciliando o amor pelos animais com o respeito às normas ambientais e a dignidade dos animais de rua.
O Que Dizem os Tutores dos Animais?
Os tutores dos animais, em geral, veem as restrições como um obstáculo à convivência saudável e inclusiva entre tutores e seus pets. Muitos argumentam que o problema não está na presença dos cães nas praias, mas na falta de infraestrutura e educação para garantir que a interação seja responsável e segura.
Para esses tutores, os pets são parte da família, e proibi-los de frequentar espaços de lazer representa uma exclusão injusta. Eles defendem que, com medidas adequadas, como coleiras obrigatórias, sacos para coleta de fezes, áreas delimitadas e regras claras, seria perfeitamente possível integrar os animais aos ambientes de praia sem comprometer a saúde pública ou o meio ambiente.
Além disso, a ideia de criar espaços “pet-friendly” encontra apoio crescente. Muitos destacam que cidades turísticas ao redor do mundo têm encontrado formas de acomodar os pets, transformando isso em um atrativo para turistas que viajam com seus animais. “Se houver regras e fiscalização, não vejo por que não levar meu cachorro para a praia. Eu sempre limpo depois dele”, diz Carla Souza, frequentadora de Ubatuba e tutora de um golden retriever.
Por outro lado, muitos tutores também levantam críticas à incoerência da fiscalização. “Pessoas responsáveis que levam seus pets e cuidam de tudo são punidas, enquanto os animais abandonados continuam pelas praias sem nenhum tipo de assistência. Isso não faz sentido”, afirma João Mendes, tutor de dois cães adotados.
Esses pontos levantam questões importantes: como equilibrar a convivência entre pets e humanos em espaços públicos? A proibição é mesmo a melhor solução ou apenas o caminho mais fácil? E, principalmente, o que está sendo feito para resolver a questão dos animais abandonados, que não podem ser ignorados quando se trata de saúde pública e preservação ambiental?
Roberta Guimarães

