Glória Menezes e Laura Cardoso: Brasil se despede de duas damas da dramaturgia

Atrizes atravessaram gerações, ajudaram a construir a televisão brasileira e transformaram personagens em lembranças afetivas do país.

Há artistas que interpretam personagens. E há aquelas que, de tanto entrarem nas casas, nas conversas e nas lembranças das famílias, acabam fazendo parte da própria história de um país.

A dramaturgia brasileira perdeu duas de suas maiores damas nesta terça-feira, 18 de agosto de 2026: Glória Menezes, aos 91 anos, e Laura Cardoso, aos 98 anos. Ambas deixaram legados eternos na televisão, no teatro e no cinema nacional.

Glória morreu nesta terça-feira em sua casa, no Rio de Janeiro. Segundo a assessoria da atriz, a morte ocorreu por causas naturais. Laura faleceu na noite de segunda-feira (17), em sua residência, em São Paulo, também por causas naturais. A despedida foi confirmada pela família na madrugada desta terça.

A coincidência das duas despedidas, separadas por poucas horas, trouxe um sentimento difícil de traduzir. O Brasil não perdeu apenas duas atrizes consagradas. Perdeu duas mulheres que estiveram presentes na formação da televisão nacional e que, ao longo de décadas, ajudaram milhões de espectadores a rir, chorar, torcer e reconhecer um pouco da própria vida na ficção.

Glória Menezes: elegância, versatilidade e uma vida dedicada à arte

Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934, Glória Menezes tinha como nome de batismo Nilcedes Soares de Magalhães.

Sua carreira profissional começou no fim dos anos 1950, período em que a televisão brasileira ainda construía sua linguagem. Antes das gravações digitais, dos efeitos especiais e das grandes estruturas, tudo dependia ainda mais da presença, da voz e da capacidade dos atores de dar verdade a cada cena.

Glória possuía essa presença.

No cinema, participou de “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte. Lançado em 1962, o filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e permanece como uma das produções mais importantes da história cinematográfica brasileira.

Na televisão, estreou na Globo em 1967, como protagonista de “Sangue e Areia”. Depois vieram personagens marcantes em obras como “Irmãos Coragem”, “Jogo da Vida”, “Guerra dos Sexos”, “Brega & Chique”, “Rainha da Sucata”, “A Próxima Vítima”, “Torre de Babel”, “Senhora do Destino”, “A Favorita”, “Cama de Gato”, “Joia Rara” e “Totalmente Demais”.

Ao longo de mais de seis décadas, Glória mostrou que não cabia em um único tipo de papel. Podia ser romântica, elegante, dramática, divertida, sofisticada ou popular. Transitava entre a comédia e o drama com uma naturalidade que fazia o público esquecer a atriz e enxergar apenas a personagem.

Segundo o acervo do Memória Globo, ela participou de mais de 40 novelas na emissora.

Glória e Tarcísio, uma parceria que ultrapassou a televisão

É impossível recordar a trajetória de Glória Menezes sem mencionar Tarcísio Meira, com quem ela dividiu a vida e muitos trabalhos.

Os dois se conheceram no início da década de 1960 e permaneceram casados por 59 anos, até a morte de Tarcísio, em agosto de 2021, por complicações da Covid-19.

Juntos, transformaram-se em um dos casais mais queridos e respeitados da cultura brasileira. Contracenaram em novelas, peças, filmes e no seriado “Tarcísio & Glória”, criado especialmente para a dupla.

Mas Glória nunca viveu apenas à sombra dessa parceria. Sua carreira tinha força própria. Ela deixa três filhos: Maria Amélia, João Paulo e o ator Tarcísio Filho.

A atriz encerrou seu contrato com a Globo em 2020, depois de mais de cinco décadas na emissora. Ainda assim, permaneceu na memória do público como uma presença familiar — daquelas que dispensavam apresentação.

Laura Cardoso: a atriz que nunca deixou de começar

Laura Cardoso nasceu em São Paulo em 13 de setembro de 1927. Faltava menos de um mês para completar 99 anos quando morreu, aos 98.

Sua história artística começou no rádio, quando interpretar significava criar personagens apenas com a voz. Em 1952, Laura chegou à TV Tupi e participou dos primeiros passos da televisão brasileira, em uma época marcada por programas ao vivo e pouquíssimos recursos técnicos.

A falta de estrutura nunca limitou sua entrega. Ao contrário: Laura transformou a disciplina do rádio e do teatro em uma atuação forte, precisa e profundamente humana.

Foram mais de 70 anos de carreira, com participações em mais de cem produções. Na televisão, tornou-se uma das recordistas de novelas e atravessou diferentes emissoras, formatos e gerações.

Na Globo, onde estreou em 1981, esteve em produções como “Brilhante”, “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Irmãos Coragem”, “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Gabriela”, “Sol Nascente” e “A Dona do Pedaço”.

Em cada trabalho, havia algo inconfundível: Laura não fazia personagens apenas para serem vistos. Fazia para serem sentidos.

Dona Isaura, de “Mulheres de Areia”, e Guiomar, de “A Viagem”, estão entre as figuras que permaneceram na memória afetiva das novelas. Mesmo em participações menores, Laura sabia ocupar a cena sem excessos, usando o olhar, o silêncio e a experiência acumulada ao longo da vida.

Seu último papel em uma novela foi Matilde, em “A Dona do Pedaço”, em 2019. Em 2025, voltou a aparecer na televisão na tradicional mensagem de fim de ano da Globo, acompanhada pelo bisneto.

Uma carreira que também brilhou no cinema

Embora tenha se tornado especialmente conhecida pelas novelas, Laura Cardoso também construiu uma trajetória importante no cinema.

Participou de mais de 30 filmes, entre eles “Terra Estrangeira”, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, e “Através da Janela”, de Tata Amaral.

No cinema, a atriz mostrou a mesma capacidade que encantava na televisão: dar profundidade a pessoas comuns. Suas personagens carregavam o peso do tempo, da família, das perdas e das escolhas, quase sempre sem precisar de grandes discursos.

Laura também atuou no teatro e trabalhou como dubladora. Entre os reconhecimentos recebidos estão o Prêmio Shell de Teatro e a Ordem do Mérito Cultural.

Ela deixa duas filhas, netos e um bisneto. Seu velório foi realizado nesta terça-feira, em São Paulo, em uma cerimônia reservada.

Duas atrizes que já haviam dividido a mesma cena

As trajetórias de Glória Menezes e Laura Cardoso não caminharam apenas em paralelo. Elas chegaram a se encontrar profissionalmente.

As duas atuaram no teleteatro “Um Lugar ao Sol”, exibido pela TV Tupi em 1959, quando a televisão brasileira ainda dava seus primeiros passos.

Décadas depois, voltaram a integrar o mesmo elenco em “Senhora do Destino”, novela exibida entre 2004 e 2005. Glória interpretou a Baronesa Laura Correia de Andrade e Couto, enquanto Laura fez uma participação como Dona Lú, mãe de Nazaré Tedesco.

Entre um encontro e outro, passaram-se mais de quatro décadas. A televisão mudou, ganhou cores, novas tecnologias e produções gigantescas. As duas, porém, continuaram fazendo o essencial: contando histórias com verdade.

Um silêncio que fica depois do último capítulo

Uma atriz nunca parte inteiramente quando deixa personagens guardados na memória coletiva.

Glória Menezes continuará na sofisticação divertida de “Brega & Chique”, nas disputas de “Guerra dos Sexos”, na força de “Irmãos Coragem” e em tantas outras mulheres que interpretou.

Laura Cardoso permanecerá no olhar das mães, avós, mulheres do campo, matriarcas e personagens aparentemente simples às quais deu enorme profundidade.

As despedidas de Glória e Laura acontecem no mesmo momento, mas suas histórias não se encerram nesta terça-feira. Elas continuam nas reprises, nos arquivos, nas cenas compartilhadas nas redes sociais e, principalmente, nas lembranças de quem cresceu acompanhando seus trabalhos.

Foram duas vidas longas e inteiramente dedicadas à arte. Duas mulheres que começaram quando a televisão brasileira também estava começando. Duas atrizes que ajudaram a transformar um aparelho ainda novo no centro da sala em um espaço de encontro, emoção e memória.

O palco silencia. As cenas permanecem.

Fontes consultadas