Habib’s, Casas Bahia, Americanas: por que tantas marcas gigantes estão entrando em crise?

Habib’s, Casas Bahia e outras grandes marcas enfrentam dívidas bilionárias. Entenda por que tantas empresas buscam recuperação judicial.

Quando uma empresa com lojas espalhadas pelo país, publicidade constante e uma marca conhecida por milhões de consumidores admite que não consegue pagar suas dívidas normalmente, a pergunta surge quase de imediato: como uma gigante chega a esse ponto?

O caso mais recente é o do Grupo Gennius, ligado às redes Habib’s, Ragazzo e Tendall. O conglomerado entrou com pedido de recuperação judicial na segunda-feira (24), declarando uma dívida de R$ 265,2 milhões. A solicitação foi aceita pela Justiça de São Paulo na terça-feira (25).

As lojas continuam funcionando. Ainda assim, a notícia amplia uma sensação que já vinha sendo formada por casos como Americanas, Casas Bahia, Polishop, Tok&Stok, Dia, Marabraz e SouthRock, antiga operadora da Starbucks no Brasil: até empresas famosas, tradicionais e aparentemente consolidadas podem ficar sem dinheiro para honrar seus compromissos.

Mas elas estão realmente “quebrando”? Nem sempre. Recuperação judicial não é sinônimo de falência — embora seja um sinal claro de que a situação financeira se tornou grave.

Habib’s e Ragazzo: dívida de R$ 265,2 milhões

No pedido apresentado à Justiça, o Grupo Gennius atribuiu a crise a uma combinação de fatores. Entre eles estão os efeitos da pandemia de Covid-19, a mudança nos hábitos dos consumidores, o avanço do delivery e a alta dos juros.

Segundo o grupo, muitas lojas haviam sido estruturadas para atender a um grande fluxo de consumidores em shoppings e centros urbanos. Com a pandemia, o movimento nesses locais caiu de maneira brusca, criando um descompasso entre os investimentos realizados e o faturamento obtido.

O delivery, embora tenha se tornado uma alternativa para manter as vendas, também alterou a lógica do negócio. Os pedidos passaram a depender mais de aplicativos, promoções, logística e taxas cobradas pelas plataformas. Em um setor com margens apertadas, essa mudança pode reduzir consideravelmente o resultado de cada venda.

O cenário ficou ainda mais difícil com o aumento dos juros. Mesmo após a redução promovida em agosto, a taxa Selic está em 14% ao ano, patamar que continua elevado e encarece empréstimos, renegociações e capital de giro.

De acordo com a empresa, o caixa pressionado dificultou o pagamento de fornecedores. O grupo afirma que a recuperação judicial pretende preservar o negócio e permitir uma reestruturação de longo prazo.

Atualmente, o conglomerado reúne 119 lojas próprias do Habib’s, 26 do Ragazzo e seis churrascarias Tendall. As unidades franqueadas não integram diretamente o pedido de recuperação judicial, segundo as informações divulgadas pela companhia.

O problema não começou agora

O caso do Habib’s não é isolado. Em 2025, o Brasil registrou 977 processos de recuperação judicial, envolvendo 2.466 empresas, o maior número da série histórica do indicador da Serasa Experian.

O levantamento apontou crescimento de 13% no número de empresas envolvidas em relação ao ano anterior. Agropecuária e serviços concentraram a maior quantidade de CNPJs em recuperação.

Em abril deste ano, mesmo com uma redução mensal, ainda foram registrados 60 processos, envolvendo 141 empresas. Serviços lideraram, seguidos por comércio, agropecuária e indústria.

Os números ajudam a derrubar uma impressão comum: uma empresa não precisa estar sem clientes ou sem patrimônio para entrar em crise. Muitas vezes, ela possui lojas, produtos, estoque e faturamento — mas não consegue gerar dinheiro com rapidez suficiente para pagar dívidas que vencem agora.

Quais grandes empresas enfrentaram dificuldades?

Nos últimos anos, várias marcas conhecidas buscaram proteção judicial ou passaram por profundas reestruturações. Cada caso possui causas próprias e não deve ser explicado por um único problema.

  • Americanas: entrou em recuperação judicial em 2023 após a revelação de inconsistências contábeis bilionárias. A empresa mantém uma área pública com a cronologia e os documentos de seu plano de recuperação judicial.
  • Casas Bahia: protocolou pedido de recuperação judicial em agosto de 2026. A companhia informou oficialmente a medida em seus documentos destinados a investidores. O processo envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas à recuperação.
  • SouthRock: operadora de marcas como Starbucks e Eataly no Brasil, entrou em recuperação judicial no fim de 2023, com dívidas declaradas de aproximadamente R$ 1,8 bilhão. O plano foi homologado pela Justiça em 2025.
  • Polishop: pediu recuperação judicial em 2024 diante da queda de faturamento, do fechamento de pontos de venda e do peso das dívidas acumuladas.
  • Dia Brasil: a operação brasileira da rede de supermercados entrou em recuperação judicial em 2024 e promoveu o fechamento de centenas de unidades como parte de sua reorganização.
  • Tok&Stok: enfrentou dificuldades financeiras, renegociação de dívidas e fechamento de lojas, mas seu processo não deve ser confundido automaticamente com falência.
  • Marabraz: a tradicional varejista de móveis também buscou recuperação judicial em meio ao endividamento e à pressão sobre o caixa.

O ponto em comum não é simplesmente “vender pouco”. Em muitos casos, a dificuldade aparece quando dívidas elevadas, despesas fixas e custos financeiros crescem mais rapidamente do que a capacidade de gerar caixa.

As sete forças que estão apertando as grandes marcas

1. Juros altos e crédito caro

Grandes redes dependem de financiamento para estoques, reformas, abertura de lojas, antecipação de recebíveis e capital de giro. Quando os juros sobem, dívidas antigas ficam mais difíceis de renegociar e novos empréstimos se tornam caros.

Uma empresa pode continuar vendendo e, ainda assim, ter boa parte de sua receita consumida por despesas financeiras.

2. Consumidor mais endividado e seletivo

Famílias com orçamento apertado adiam a troca de móveis, eletrodomésticos, roupas e outros produtos. Também reduzem refeições fora de casa e procuram promoções com maior frequência.

O varejo brasileiro cresceu 0,5% em junho de 2026 e acumula alta de 1,9% no ano, segundo o IBGE. Isso mostra que o consumo não desapareceu, mas o desempenho geral pode esconder diferenças importantes entre setores e empresas.

3. Expansão rápida demais

Abrir muitas lojas aumenta a presença da marca, mas também cria despesas com aluguel, funcionários, estoque, energia, logística e manutenção.

Quando a expansão é financiada por dívidas e o faturamento fica abaixo do esperado, a estrutura que antes representava crescimento pode se transformar em um peso difícil de sustentar.

4. Mudança no comportamento do consumidor

O brasileiro passou a comprar mais pela internet, comparar preços em segundos e pedir comida por aplicativos. Isso obrigou empresas tradicionais a investir em tecnologia e logística enquanto ainda sustentavam lojas físicas caras.

No setor de alimentação, o delivery amplia o alcance, mas envolve comissões, embalagens, descontos e custos de entrega. Vender mais pedidos não significa necessariamente lucrar mais.

5. Margens cada vez menores

Alimentos, combustíveis, energia, aluguéis, salários, fretes e insumos ficaram mais caros. Nem sempre é possível repassar todo o aumento ao consumidor.

A empresa pode até registrar crescimento de receita, mas terminar o mês com menos dinheiro disponível.

6. Erros de gestão e falhas de governança

Nem todas as crises são provocadas pela economia. Decisões equivocadas, controles internos frágeis, endividamento excessivo e problemas contábeis também podem comprometer empresas de grande porte.

O caso Americanas é um exemplo de situação com características próprias, marcada pela descoberta de inconsistências contábeis. Por isso, não deve ser colocado no mesmo nível de empresas afetadas principalmente pela pandemia ou pelos juros.

7. Um problema antigo adiado por anos

Empresas conhecidas conseguem negociar prazos e obter crédito com mais facilidade do que pequenos negócios. Isso pode prolongar sua sobrevivência, mas também permite que a dívida cresça.

Quando bancos e fornecedores deixam de conceder novos prazos, a falta de caixa aparece de uma vez — embora o problema tenha começado muito antes.

Recuperação judicial não significa portas fechadas

A recuperação judicial é um mecanismo previsto em lei para empresas que enfrentam uma crise econômico-financeira, mas ainda possuem atividade considerada viável.

Em regra, cobranças e execuções ficam temporariamente suspensas enquanto a empresa apresenta um plano aos credores. O documento pode prever novos prazos, venda de ativos, entrada de investidores, redução da dívida e alterações na operação.

No caso do Grupo Gennius, a KPMG terá 15 dias para apresentar um relatório inicial. Depois da publicação do edital, os credores poderão contestar valores ou solicitar a inclusão de créditos.

O grupo deverá apresentar seu plano de recuperação em até 60 dias, contados da publicação da decisão. O descumprimento do prazo pode levar à conversão do processo em falência.

Portanto, a recuperação não garante que a empresa será salva. Ela oferece tempo e proteção para tentar uma reorganização.

E quem tem uma franquia dessas marcas?

O pedido de recuperação da empresa responsável pela marca não significa que todos os franqueados estejam automaticamente no mesmo processo.

No caso de Habib’s e Ragazzo, a companhia informou que a rede franqueada não integra a recuperação judicial. Cada unidade pode pertencer a um empresário independente, com CNPJ, empregados, receitas e dívidas próprios.

Ainda assim, uma crise na franqueadora pode gerar dúvidas sobre fornecimento, publicidade, sistemas, repasses e continuidade dos contratos. Franqueados e fornecedores devem acompanhar os comunicados oficiais e buscar orientação jurídica antes de tomar decisões.

Para os consumidores, as lojas permanecem abertas e os atendimentos seguem normalmente, conforme informado pelo grupo.

O alerta também vale para o comércio do Litoral Norte

Embora os casos envolvam redes nacionais, os fatores que pressionam essas empresas também chegam ao comércio de Caraguatatuba, São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba.

A sazonalidade do turismo, os aluguéis comerciais, a contratação temporária, os custos de estoque e a queda do movimento fora da alta temporada tornam o planejamento financeiro ainda mais importante na região.

O tamanho da empresa não garante imunidade. O que mantém um negócio vivo é a capacidade de controlar despesas, adaptar-se aos hábitos do consumidor, preservar o caixa e crescer em um ritmo compatível com sua receita.

A crise das grandes marcas deixa uma lição direta: faturamento, fama e número de lojas não são a mesma coisa que lucro ou saúde financeira.

Entenda em 1 minuto

  • Recuperação judicial não é falência, mas indica uma crise financeira relevante.
  • Habib’s, Ragazzo e Tendall continuam operando durante a reestruturação.
  • As franquias do grupo não integram diretamente o processo informado pela companhia.
  • Juros altos, crédito caro, consumo seletivo e despesas fixas pressionam as empresas.
  • Expansão excessiva, falhas de gestão e demora para reconhecer os problemas podem agravar as dívidas.
  • A empresa precisa convencer seus credores de que ainda é viável.

Fontes consultadas