Ubatuba sob o olhar crítico: sustentabilidade, contratos e infraestrutura

Em Ubatuba, a Taxa de Preservação Ambiental, a Zona Azul e a ponte da Maranduba expõem desafios de transparência, contratos e infraestrutura — entenda os riscos.

A cidade de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo, simboliza com força o dilema entre discurso de sustentabilidade e práticas administrativas que carecem de clareza. A partir de três fios — a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), o sistema de estacionamento rotativo (Zona Azul) e a restrição de tráfego na ponte sobre o rio Maranduba — este artigo investiga lacunas de transparência, execução e impacto real para a população.

A TPA: promessa ambiental e discrepâncias contratuais

O que é e qual o objetivo

A Taxa de Preservação Ambiental (TPA) foi instituída para arrecadar recursos e aplicá-los em infraestrutura ecológica e preservação local. Por exemplo, segundo a Prefeitura, a arrecadação de janeiro de 2025 totalizou R$ 7,277 milhões.

As práticas e os indícios de irregularidades

Contudo, posts nas redes sociais apontam que entre o valor aprovado pelo conselho municipal (R$ 25,5 milhões) e o contrato efetivo com a empresa para instalação de banheiros públicos ficou um valor muito menor (R$ 5,58 milhões) — o que geraria uma discrepância de quase R$ 20 milhões.

Oficialmente, a Prefeitura anunciou que “iniciou a instalação dos banheiros públicos nas praias” com recursos da TPA em junho de 2025, prevendo 30 unidades até o fim do ano.

Análise

  • Transparência insuficiente: apesar de haver relatório de arrecadação da TPA, não há detalhamento público que comprove todos os contratos associados ou valores exatos executados.
  • Execução atrasada: a promessa de 30 banheiros espalhados por várias praias contrasta com relatos de “parte das estruturas ficou meses fechada” — o que mina a credibilidade.
  • Relação entre arrecadação e aplicação: se os recursos não forem revertidos conforme prometido, a taxa pode ser vista mais como cobrança do que investimento, prejudicando o discurso verde.

Zona Azul: modernização que recua

O plano e a abrupta reversão

A implantação do sistema automatizado de estacionamento rotativo em Ubatuba foi anunciada para 16 de dezembro de 2024, com 45 parquímetros instalados, e pagamento via aplicativo, cartão, pix ou moeda.

Menos de um ano depois, porém, a Prefeitura comunicou que o sistema voltaria a funcionar de maneira analógica, com talonários e agentes, a partir de outubro de 2025. Usuários registraram reclamações no Reclame Aqui referente a falha do aplicativo e da devolução de crédito.

Análise

  • Investimento e retorno duvidosos: se o sistema automatizado foi instalado e depois desativado, sobram dúvidas sobre o custo-benefício para o município.
  • Gestão de contrato pouco clara: não há na mídia local informações claras quanto à empresa que venceu contrato, valores pagos e motivos da reversão à forma analógica.
  • Confiança pública abalada: a população experimenta “modernização” e depois retrocesso — isso compromete a imagem administrativa e o apoio ao sistema.

Ponte sobre o rio Maranduba: infraestrutura em alerta

O fato

O Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo (DER-SP) instituiu, em 9 de outubro de 2025, a restrição do peso bruto total (PBT) permitido na ponte sobre o rio Maranduba (Km 77,8 da SP-055) para 12 toneladas, ante 23 toneladas anteriores.

Em 16 de outubro, foi anunciado que a restrição seria suspensa e retomada a liberação para até 23 toneladas, com o tráfego próprio em “pare e siga” enquanto durarem obras de reforço emergencial.

Impactos identificados

  • Logística e economia locais: limitação de peso força uso de rotas alternativas mais longas, com aumento de custos para transporte, abastecimento e turismo.
  • Temporada turística: Ubatuba depende fortemente da alta temporada — a restrição antes do verão pode reduzir afluxo ou encarecer serviços locais.
  • Infraestrutura negligenciada?: a necessidade emergencial de limitação reforça que a ponte operava com sobrecarga ou sem manutenção adequada.

Análise

  • A medida revela que a infraestrutura existente estava vulnerável, comprometendo a mobilidade e a economia local.
  • A velocidade de comunicação e execução é duvidosa: houve restrição repentina e liberação condicional em uma semana, sem ampla consulta pública ou transparência dos estudos.
  • Apesar de necessária, a restrição representa risco operacional elevado para a cidade e setor turístico — o que questiona a adequação da manutenção preventiva.

O que todas as situações revelam

  1. Discurso vs. realidade: projetos de “sustentabilidade” ou “modernização” ganham destaque, mas esbarram em execução insuficiente ou reversão de decisões.
  2. Contratos com pouca visibilidade pública: falta de dados claros sobre valores, empresas contratadas e resultados alcançados gera suspeita de mau uso ou desperdício.
  3. A confiança institucional deteriora: moradores e turistas percebem que “algo não fecha”, o que enfraquece o apoio e a participação cívica.
  4. O turismo e a economia local expostos: infraestrutura precária ou contratos fracassados afetam diretamente a condição econômica da cidade dependente do Litoral Norte.

Ubatuba enfrenta um momento crítico onde o discurso da preservação e modernização encontra os limites da execução e transparência. Quando políticas públicas voltadas ao turismo, meio ambiente e infraestrutura operam com lacunas contratuais e operacionais, o resultado pode se traduzir em desconfiança social, prejuízo econômico e dano à imagem da cidade.

Para que a arrecadação — seja da TPA, da Zona Azul ou do trânsito rodoviário — reverta em benefícios reais, é vital que a gestão municipal e os órgãos responsáveis ampliem a publicidade, garantam prestação de contas e promovam participação da comunidade.

Somente assim a promessa de “cidade sustentável e bem equipada” poderá fazer jus à realidade.

Roberta Guimarães